
Eu, Gourmet: Neste tour feito em fevereiro visitando vinícolas gaúchas quais foram as suas impressões sobre a Safra 2012?
Daniel Arraspide: Falando em vindima, em todas as vinícolas nas que tivemos possibilidade de conversar com os vinhateiros e enólogos, o otimismo foi o principal ingrediente. Frases como "o clima tem-nos ajudado", ou "esta safra é melhor ainda que aquela histórica de 2005" foram repetitivas. Na grande maioria das vinícolas da Campanha e Serra as uvas brancas já foram colhidas, e o clima seco tem propiciando um bom desarrolho das tintas, que começam a partir de agora a entrar nas cantinas. Acredito que será um ano de grandes vinhos!

EG: Como está a viticultura uruguaia atualmente?
DA: O Uruguai e seus vinhos continuam trabalhando numa etapa de consolidação da qualidade, mas lutando com um mercado doméstico tendente à baixa, exportando grande volume de vinho a granel - com preços baixos - para a Rússia, que possibilita desfazer o excedente de estoque de algumas empresas. Quanto ao comportamento da safra atual, o otimismo não é tão grande como no Brasil pois as chuvas severas nas últimas semanas têm complicado bastante o que vem dificultando o trabalho dos enólogos.
EG: O Tannat continua sendo a casta emblemática do país? O que de bom tem se produzido por lá?
DA: Os vinhos Tannat são os que nos diferenciam como país produtor do Cone Sul mas não é a única coisa boa produzida no Uruguai. Se tiver que indicar dois tipos de vinhos bons, desses que vale a pena experimentar, eu indicaria os feitos com a Sauvignon Blanc, e também os vinhos de corte. Os primeiros porque vem dando o que falar pela sua qualidade nos últimos anos com vinhos bem expressivos, de marcada tipicidade e que harmonizam magnificamente bem com os frutos de mar, que na costa atlântica oferecem uma diversidade e qualidade ótima. E os segundos (os blends) porque complementam, muitas vezes, a rusticidade da Tannat, aportando elegância e fineza nas misturas com Merlot, Cabernet e outras castas, com vinhos que podem ter um ótimo potencial de guarda e harmonizar com pratos de alta gastronomia e com os "asados" típicos do Uruguai.

EG: Você é um entusiasta quando se fala em Rio Grande do Sul. Como você avalia o vinho produzido no estado?
DA: Eu me sinto como na minha própria casa quando visito o RS, e isso é um mérito de vocês, gaúchos, que são um povo maravilhoso e com uma grande hospitalidade. Falando em vinho, eu já fiquei muito surpreso quando visitei a Serra há uns 5 anos atrás e fiquei impressionado na qualidade, sobretudo, dos espumantes. Desde então tenho visitado a região (e outras como a Campanha) várias vezes por ano. E o melhor disso é que a qualidade não apenas se manteve como também aumentou. No caso dos vinhos, minha percepção indica a Merlot como a casta tinta melhor adaptada na Serra, sem esquecer a Chardonnay que dá vinhos excelentes. Já na Campanha e na Serra do Sudeste acho que ainda não se definiu um tipo de vinho em particular que possa ser indicado como "o melhor" mas estas regiões também podem dar muita coisa boa.
EG: E em termos de espumante, este pode realmente ser o cartão de visitas do RS no universo dos vinhos?
DA: Sem dúvidas! Acredito que sim. Os espumantes produzidos no estado tem um nível de qualidade alto, mas alto mesmo, e isso possibilita que os produtores levem para fora do país esses borbulhantes conquistando novos consumidores pelo globo, pois carregam consigo um excepcional produto. Em espumantes o estado é líder de qualidade e com aptidão para concorrer com muita força nos principais mercados.
EG: Qual o vinho que você bebeu e jamais esqueceu?
DA: Tenho uma agradável lembrança de um espumante que degustei faz alguns anos na Expovinis em São Paulo. Foi um Cave Geisse Terroir Nature engarrafado em 6 litros, do qual não lembro a safra. Inacreditável a qualidade desse espumante, a sua fineza, e a sua elegância.
EG: Que conselho você dá aqueles que estão começando a se interessar por vinhos?
DA: Começar a degustar sem preconceitos, esse é o primeiro passo. E, claro, degustar primeiro os vinhos mais simples, se forem espumantes eu indicaria o Moscatel, e se foram tintos tranqüilos eu pensaria nos menos encorpados. Não adianta passar de uma bebida leve como a cerveja para os vinhos estruturados e secos, isso é algo que vai chegar no seu devido tempo.

Confira um pouco mais do trabalho de Daniel Arraspide através de seu site:
http://www.vinoybebidas.com
Artigo publicado no Jornal Gazeta do Sul de hoje.
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